terça-feira, 16 de agosto de 2011

Minimamente Feliz

Adorei este texto e compartilho com vocês.

A felicidade é a soma das pequenas felicidades. Li essa frase num outdoor em Paris e soube, naquele momento, que meu conceito de felicidade tinha acabado de mudar. Eu já suspeitava que a felicidade com letras maiúsculas não existia, mas dava a ela o benefício da dúvida.
Afinal, desde que nos entendemos por gente aprendemos a sonhar com essa felicidade no superlativo. Mas ali, vendo aquele outdoor estrategicamente colocado no meio do meu caminho (que de certa forma coincidia com o meio da minha trajetória de vida), tive certeza de que a felicidade, ao contrário do que nos ensinaram os contos de fadas e os filmes de Hollywood, não é um estado mágico e duradouro.
Na vida real, o que existe é uma felicidade homeopática, distribuída em conta-gotas. Um pôr-de-sol aqui, um beijo ali, uma xícara de café recém-coado, um livro que a gente não consegue fechar, um homem que nos faz sonhar, uma amiga que nos faz rir. São situações e momentos que vamos empilhando com o cuidado e a delicadeza que merecem alegrias de pequeno e médio porte e até grandes (ainda que fugazes) alegrias.
'Eu contabilizo tudo de bom que me aparece', sou adepta da felicidade homeopática. 'Se o zíper daquele vestido que eu adoro volta a fechar (ufa!) ou se pego um congestionamento muito menor do que eu esperava, tenho consciência de que são momentos de felicidade e vivo cada segundo.
Alguns crescem esperando a felicidade com maiúsculas e na primeira pessoa do plural: 'Eu me imaginava sempre com um homem lindo do lado, dizendo que me amava e me levando pra lugares mágicos. Agora, se descobre que dá pra ser feliz no singular:
'Quando estou na estrada dirigindo e ouvindo as músicas que eu amo, é um momento de pura felicidade. Olho a paisagem, canto, sinto um bem-estar indescritível'.
Uma empresária que conheci recentemente me contou que estava falando e rindo sozinha quando o marido chegou em casa. Assustado, ele perguntou com quem ela estava conversando: 'Comigo mesma', respondeu. 'Adoro conversar com pessoas inteligentes'.
Criada para viver grandes momentos, grandes amores e aquela felicidade dos filmes, a empresária trocou os roteiros fantasiosos por prazeres mais simples e aprendeu duas lições básicas: que podemos viver momentos ótimos mesmo não estando acompanhadas e que não tem sentido esperar até que um fato mágico nos faça felizes.
Esperar para ser feliz, aliás, é um esporte que abandonei há tempos. E faz parte da minha 'dieta de felicidade' o uso moderadíssimo da palavra 'quando'.
Aquela história de 'quando eu ganhar na Mega Sena', 'quando eu me casar', 'quando tiver filhos', 'quando meus filhos crescerem', 'quando eu tiver um emprego fabuloso' ou 'quando encontrar um homem que me mereça', tudo isso serve apenas para nos distrair e nos fazer esquecer da felicidade de hoje. Esperar o príncipe encantado, por exemplo, tem coisa mais sem sentido? Mesmo porque quase sempre os súditos são mais interessantes do que os príncipes; ou você acha que a Camilla Parker-Bowles está mais bem servida do que a Victoria Beckham?
Como tantos já disseram tantas vezes, aproveitem o momento, amigos. E quem for ruim de contas recorra à calculadora para ir somando as pequenas felicidades.
Podem até dizer que nos falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para os nossos tempos. Que digam.
Melhor ser minimamente feliz várias vezes por dia, do que viver eternamente em compasso de espera.
(Leila Ferreira, jornalista)

4 comentários:

Blog da Rutha disse...

Amei o texto e já faz tempo que penso assim. Todos os dias acontecem coisas boas na nossa vida, são coisas bem simples que muitas vezes não damos valor mas nos fazem felizes assim mesmo. Hoje mesmo na volta da escola minha filha comentou que fazia tempo que não pegávamos um trânsito tão bom ! E nós duas ficamos felizes por isso...
As pessoas têm que parar de sonhar e começar a curtir as coisas boas que acontecem na realidade !
Beijos
Laís

Clarice disse...

Muita sabedoria no texto. Quando eu percebi que essa felicidade permanente não existe, passei a ser feliz durante mais momentos do dia.
Acredito que poucas mães sabem o mal que fazem a seus filhos quando empurram aquelas histórinhas de final sempre feliz, tudo dá certo, o bonzinho sempre ganha a parada e coisa e tal.
Eu estou esperando o homem ideal até hoje. Enquanto ele não aparecia fui me contentando com sapos e lagartos e sendo feliz muitas vezes.
Beijo e parabéns de novo!

Gloria disse...

Bom, as duas foram unanimes na opinião. Acho que deveríamos ensinar a essa geração que está aí, que nem sempre vão ter o que querem e nem por isso o mundo vai acabar e que felicidade não é o que vem fácil e sim, se conquista dia a dia.Bjs

Anônimo disse...

Lindo texto Glória! Sábio tambem; adorei!Tenho tambem minhas teorias sobre o assunto; fruto de pesquizas, mas explica-las aqui seria difícil, longo e penoso. Mas saiba que as tenho.
Parabens pelo aniversário mesmo atrazada; seja sempre feliz mesmo que em doses homeopáticas.
Parabens para a nora tambem, pela formatura, fruto da determinação e do espírito guerreiro.
Beijinhos Lê